quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Festa com as crianças da Polana Caniço


Joana e Tiago, os portugueses estão indo embora semana que vem... Para despedida, Joana idealizou uma festa para as crianças que aconteceu nesta terça feira (28 de agosto de 2012) no bairro Polana Caniço, onde se localiza a ONG.

Alguns intercambistas que estão aqui e amigos de Portugal contribuíram com algum dinheiro para comprar algo para as crianças.

Foi comprado bolos, salgadinhos, pães, bolachas, sumos, refrigerantes, pirulitos, ursinhos de pelúcia.
A festa começou. Chegava gente de todos os lados... Alguns nunca tínhamos conhecido.

Ao mesmo tempo em que estávamos alegres, estávamos tristes por não poder atender a todos. Como eram muitas crianças e mães, acabou saindo do controle. Mas felizmente conseguimos atingir nosso objetivo: tornar o dia diferente.

Sentíamos por alguns segundos um aperto no coração na hora de comer. Víamos que para eles aquilo era... (realmente, fiquei sem palavras... Não tenho uma palavra certa para descrever o que vi... Só quem estava ali, naquele momento, poderia sentir tal coisa... Aquilo poderia estar sendo a única refeição do dia para alguns, ou a segunda para outros... Via em seus olhos a fome, o desejo e a satisfação de comer algo diferente ou “de estar comendo alguma coisa... a primeira coisa do dia”).

Foi cansativo, mas muito gratificante apesar de tudo...

Trouxe uns balões do Brasil e fiz esculturas nas bexigas com a portuguesa chamada Cláudia (ensinei-a em 5 minutos). Fizemos cachorrinhos... Pintamos os rostinhos de cada um também...

Joana e Tiago imprimiram fotos das crianças e colaram numa parede qualquer de uma casa (como a ONG ainda esta fechada, fizemos a festa, bem como o nosso trabalho, no quintal das casas, na rua...). As crianças ficaram com as fotografias no final.

Arsênio também estava lá auxiliando.

Meu avô, João Carbonar, me deu uma camisa do Operário Ferroviário Esporte Clube, o Fantasma da Vila Oficinas. Time de Ponta Grossa, minha cidade. Ele me fala para entregá-la a alguém que realmente merecesse. Não tive dúvidas em quem entregaria a tal camisa. Disse para Arsênio que ele é um menino batalhador e que venceria todos os problemas que esta passando. Basta ter fé e acreditar em Deus.

Fiz uma dedicatória na camisa e ele logo vestiu. Soube ali que dei a camisa para a pessoa certa! E ele ainda falou “- Agora sou o mais novo torcedor do Operário!”.

Estou aprendendo a cada dia... Com meus acertos, mas principalmente com os erros. Com as alegrias e tristezas... Isso para mim é viver!

Recebo um e-mail de minha professora da UEPG e amiga, Marcela Godoy... Que diz o seguinte:

”E aí, como vão as coisas? Às vezes leio seu blog. Que experiência. E é isso mesmo. Em viagens a turismo, só se vê coisas boas. Em viagens como a sua, há de tudo um pouco: alegria, tristeza, euforia, decepção, vontade de largar tudo, saudade... Mas sem dúvida essas experiências irão te fortalecer para o resto da vida. Você já é uma pessoa diferente, e isso não tem preço. O saldo é sempre mais que positivo. E esses altos e baixos (mais altos do que baixos) é que diferenciam o turista do verdadeiro viajante. Como diz  Rubem Alves, ‘infeliz aquele que viaja e não consegue desembarcar de si mesmo’...”.

Com toda a certeza, eu estou desembarcando de mim... Waka, Waka!



















Família Alage Magaia Varzina Vaz


Prometi que na próxima postagem iria falar sobre a família que me acolheu, no entanto, devido à festa do Arsênio, estou postando hoje.

Primeiramente, pergunto à Dona Laurinda como deveria chamar a família no Blog: “Família Magaia”, “Família Alage” ou “Família Varzina Vaz”.

Ela responde rindo: “- Epa! Como assim? É claro que “Família Alage”, sou a dona da casa”.

Para vocês entenderem vou começar do princípio.
Dona Laurinda tem três filhos: Amiro Jamal, Neima Ester e Epifania Matilde.

Amiro e Neima Alage Nalá são filhos do primeiro casamento. Epifania Magaia, do segundo.

Moramos em uma casa ótima, com conforto. Não posso reclamar, pois aqui estou no céu. Não existem os 163 degraus para subir todos os dias, como era no apartamento. Temos um espelho, um lavatório (a pia para brasileiros, uma vez que pia aqui é o vaso sanitário)- coisa que no apartamento estava quebrada e em cima de um balde. Fico muito feliz em tomar meu banho com canequinha.  Temos duas empregadas, Dona Isabel e Dona Sandra.

Em Maputo é muito comum as casas terem empregadas, o salário que se paga é muito baixo (em torno de 1500 Meticais/mês – R$115,00).
Os integrantes da família são: Dona Laurinda, a mãe. Amiro, Neima e Epifania, os filhos. Emir Varzina Vaz, o padrasto. Henrique Sarapião, o primo.

A minha relação com eles melhora a cada dia. Dona Laurinda conta que Epifania e Amiro sempre brincavam de falar como brasileiros. Gosto de ouvir suas histórias sobre o país e sobre as pessoas. Ficamos horas a conversar sobre novelas e seus atores.
No momento, esta passando a novela “Paraíso”, “Tititi” e “Insensato Coração”. Parece que estou as vendo no “Vale a pena ver de novo”. (Rs)

As novelas aqui tem muita influencia sobre os moçambicanos. Vejo isso como um lado negativo, pois aos poucos podem estar perdendo sua identidade. A rede Record é exibida em TV aberta. Como só mostram, em sua maioria, desgraças... Alguns possuem uma imagem distorcida sobre o Brasil (violência, tráfico, favela, além de florestas, carnaval e futebol).

Acontece o mesmo com eles. Fala-se em África, logo se remete à fome, miséria, falta de água, AIDS/HIV.

Não comentam sobre as lindas praias que Moçambique possui como de Macaneta, Bilene, Inhambane, Inhaca, Ponta D’Ouro, etc. O verdadeiro paraíso... Não comentam sobre o povo alegre e cativante... Não comentam sobre as lindas casas e hotéis maravilhosos... Verdadeiros palacetes. Embora, isto esteja acessível à minoria da população.

A música brasileira também tem influência. Sempre quando estou na chapa, em alguma loja ou assistindo televisão (aqui passam muitos clipes de músicas) sempre ouço Roberto Carlos, Michel Teló, Victor e Léo, Paula Fernandes, etc. Sexta feira, 31 de agosto haverá um show da Roberta Miranda. E, moçambicano não pode ouvir uma batida que logo começa a dançar... É praticamente automático..hehehe

Damos muitas risadas com as situações embaraçosas, engraçadas e confusas.

Casa de banho é banheiro. Pia é privada. Lavabo é pia de lavar a mão e de lavar a louça. Xícara é chavina. Café da manhã é mata bicho e pequeno almoço para os portugueses. Geleira é geladeira. Refrigerante é refresco. Suco é sumo. Misto Quente é tosta. E por ai vai...

Num dos primeiros dias aqui, acordei e Epifania disse: “- Já Matabixastes?!” E eu: “- WHAT????” (é claro que eles falam isso ligeiro e eu não entendia no começo. Às vezes tenho que pedir para repetirem devagar..hahaha)

Estou falando algumas frases que usam aqui. Epifania tira sarro de mim quando falo o: “Tais a ver?”. É como se fosse o “entendeu?” no final da frase... Mas ela ri porque puxo o “R”, tais a veRR? heuheuheu

Sou muito apegada a Epifania. Estamos criando uma amizade que com toda a certeza vai ser além das fronteiras de Moçambique. Ela pensa em fazer intercâmbio no Brasil ano que vem. Fiquei muito feliz, pois vou rever novamente a pessoa que me acolheu com todo amor e carinho.

Só quem está sozinho em um lugar desconhecido, com as condições em que me encontrava irá entender. Vir para essa casa foi uma das melhores coisas que aconteceu aqui. Conheci pessoas maravilhosas.
Passei mal essa semana e eles tiveram um cuidado comigo surpreendente... Estou me considerando como filha já. Uma integrante da Família Alage Magaia Varzina Vaz. =)

Serei imensamente grata por todo o cuidado e atenção.

(OBS: Mandando beijos para minha família e amigos. Agradeço a todos aqueles que se preocupam comigo e que estão deixando meus dias completos. A saudade é imensa que sinto por cada um... Agradeço meus avós, pais e irmãos pelas conversas de conforto e orações. Agradeço aos meus amigos que sempre estão deixando recadinhos que me deixam mais alegre – nem que seja o recadinho pra trazer um chaveirinho da África hahaha -. As mensagens de todos vocês me fazem ter forças para prosseguir... Faz toda a diferença para mim... Dia após dia. Mando beijos enormes para Gabriella, cravo e canela... leitora assídua do blog... Valeu mesmo a todos!). Outubro está ai galere!!!



                         Epifania Magaia


                       Família Alage 

                            Neima Alage

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Parabéns ao Arsênio.



Hoje, 22 de agosto é o aniversário do Arsênio, um menino da ONG que estava completando 22 anos de idade. Arsênio tem um grave problema de coração e necessita urgente de um tratamento. Entretanto, o tratamento só é disponível na Europa. Joana comenta com seu pai, que é médico em Lisboa, que argumenta a necessidade e urgência desse tratamento. Maputo (muito menos outras províncias de Moçambique) não possui estrutura necessária para isso.

O que mais motiva-nos a ajudar Arsênio, é que, mesmo com o sério problema de saúde, ele ainda pensa e trabalha para o bem do próximo, auxiliando também, na Escola da Paz, onde a ONG ASDECUMO a princípio estava utilizando. Contudo, com o agravamento do problema, ele não consegue andar longas distâncias e nem fazer muito esforço.

Como era seu aniversário, Joana deu a ideia de fazermos um bolo e levarmos a ele para uma “festa surpresa”. A alegria desse menino me fez perceber o quanto já valeu a minha vinda para cá.

Fizemos um bolo na casa da família de Epifania (onde estou morando), com os ingredientes e as medidas alternativas ao que estava escrito na receita. E é claro, que o medo do bolo não crescer, abatumar, ou não ser saboroso nos afligia toda hora. Gravamos esse acontecimento.

O bolo assou, cresceu... Pegamos, eu, Tiago e Joana, a chapa rumo à casa de Arsênio que se localiza próximo a Escola da Paz. Nos encontramos no local marcado, com o André (português que esta visitando os pais que moram em Maputo) e Arsênio (que nem imaginava o que estava por vir).

No meio do caminho, uma menininha da comunidade, nos olha, aponta e grita... “Branca! Ela é branca!” Nesse momento eu abri um sorriso e disse um “Oi, tudo bem com você?” e ela apenas sorriu... Fazendo com que eu pensasse que nós ali, éramos como um acontecimento do dia para ela.

Chegamos a casa. Arsênio entra primeiro, depois os meninos, enquanto eu e Joana ficamos pelo lado de fora a tentar acender as velas que André havia comprado... Dois cisnes na lagoa (22).

Estava ventando... As velas acendiam e apagavam... Mesmo assim, entramos e começamos a cantar parabéns. Arsênio não acreditava no que estava vendo e ficou sem reação. Eu, segurando o bolo, cantei somente a primeira parte do parabéns. Os portugueses continuaram a cantar uma parte diferente, e não apenas repetir novamente as rimas em um ritmo mais rápido. E eu só no lalalala... rsrs

Ao terminar a canção, falo para Arsênio “-Faz um pedido!”. No meu interior, acredito que ele pediu o tratamento.

Naquele momento, tenho a certeza de que cresceu uma esperança em Arsênio e em nós também.

Todos da casa começaram a gritar... “Discurso, discurso!”. Ele agradece e diz que é o dia mais feliz da vida dele. Que mudamos seu dia e que era muito grato...

Aquele homem ficou sem palavras, não sabia o que dizer. Mas víamos em seus olhos a gratidão que expressava. Existem momentos em que não é preciso falar nada. Apenas sentir.

Joana e Tiago entregam a ele umas recordações de Portugal para nunca se esquecer desse dia. Entre as lembranças, havia um calendário em que Arsênio pediu-nos para assiná-lo e marcar o dia do nosso aniversário.

Escrevi: “Que Deus te abençoe muito. Adelaine (Brasil)”.

Os portugueses falaram que é tradição dar uma “mordida” na vela e fazer um pedido. Arsênio pega as duas velas, coloca junto ao seu rosto, fecha os olhos por alguns instantes e beija a vela como se estivesse selando aquele pedido. Neste momento, todos olharam em silêncio.

Não podia deixar de não postar com a máxima urgência esse dia. Decidimos arrecadar dinheiro para ajudar no tratamento de Arsênio. Se você que está viajando comigo, lendo todos os acontecimentos que estão aqui em Moçambique, e quiser ajudar também, agradecemos a colaboração e seremos gratos pelo resto da vida. Por favor, entre em contato.

Mesmo com muitas coisas acontecendo aqui, as dificuldades, sofrimentos presenciados, medos, traumas... Se eu puder ajudar esse menino, que tem a vida inteira pela frente, conseguir esse tratamento... Eu vou ter a certeza do porque eu estou aqui! Por que Deus me permitiu vir tão longe.

O mundo seria muito melhor se existissem mais pessoas como Arsênio. Não podemos deixar que esse anjo, deixe esse mundo... Pois muitas crianças moçambicanas ainda dependem dele para ter esperança.

Muito obrigada.






segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E a vida segue...

Essa semana está sendo a mais longa e a mais difícil... A primeira semana é só maravilhas. É quando viajamos e conhecemos lugares novos, tudo é lindo. A segunda... Bem, a segunda é aquela que você pensa desesperadamente em voltar embora e desistir de tudo.
Não julgues, pois só sente isso quem se vive ou já passou por situação parecida. Temos que viver um dia de cada vez para não surtar, enlouquecer. A todo o momento tenho que respirar e pensar: Hey, calma! Você está aqui por um objetivo. Cumpra-o! 
Mas neste dia desabei... Fui assaltada. Comecei a andar pela rua sem saber o que fazer. Joana me abraça e diz para ficar calma e que vamos rir disso um dia.
Não foi pelo material. Foi pela situação de impotência que senti. Pela fragilidade e insegurança. 
Lembro-me de Joana falando: “Aqui nós somos como se fossemos uma mosca. Podemos estar vivos agora e passar um segundo e, puff. Acabou!”.
Mas, penso que em todo lugar é assim. Corremos riscos constantemente. Estamos sujeitos a tudo. E não posso deixar que acontecimentos como esse me abalassem. Poderia acontecer com qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Nesse momento, recordo de uma frase que eu gosto muito: “Deus quer que você esteja, onde você está”.
Muitas coisas boas têm acontecido aqui. Aqueles sorrisos como já disse, enchem meu dia de alegria. Esse povo é extremamente alegre e cativante.
Dia 16, quinta-feira, nosso dia de folga, acordo com meu celular tocando (Ops! O celular não me pertence mais - heuheuheu). Era seu Leonel, pai de um amigo moçambicano, o Marco que estudava em minha cidade. Ele nos leva a Macaneta. Uma praia paradisíaca que estava deserta por não ser temporada.
A praia fica a alguns quilômetros daqui. A estrada de acesso é muito precária. Temos que passar pela balsa. Rodamos mais alguns quilômetros e lá estávamos. Bem vindo à Macaneta!
Foi a primeira vez que senti as águas geladas do Índico. Essa sensação foi surpreendente. Estar ali foi como um sonho realizado. Tive por instantes, a consciência de que estava praticamente do outro lado do mundo. É nesses momentos em que fazemos as exclamações: “Olha até onde eu fui capaz de chegar! Se eu tive coragem de chegar até aqui, tenho coragem para ir onde quiser”.
Almoçamos em um restaurante. Éramos os únicos clientes. Comemos lula. Como acompanhamento, havia salada e batatas fritas (aqui se comem muitas batatas fritas desde o “pequeno almoço” ou “mata bicho”, o café da manhã para os brasileiros).
Foi a primeira vez que vi cachorros em Moçambique. Achei muito estranho e perguntei. Falaram que com a vinda dos chineses eles andaram “sumindo” das ruas. Houve tempos também que algumas pessoas queimavam os animais. Confesso que fiquei chocada.
Soubemos um pouco da história do povo moçambicano. Seu Leonel contou-nos sobre sua vida e alguns acontecimentos do país. Relembrou o sofrimento com a enchente no começo dos anos 2000. Disse que a água chegava a atingir o 3° andar. Há uma foto de uma mulher que deu a luz em cima de uma árvore. Foi notícia mundial.
Contou-nos também que em setembro haverá a escolha da nova mulher do Rei da Suazilândia. Ele escolhe uma a cada ano. Ele conta que é como se fosse um concurso que todas as mulheres virgens querem participar. Ela ganharia muito com isso, mas principalmente, sua família. O processo de seleção é feita por senhoras de idade que examinam o corpo e se a candidata é realmente virgem. Só a partir dessa seleção é que o rei escolhe a finalista.
Ao voltar para a estrada, encontramos algumas crianças que estavam chegando da escola. Vimos um menino brincando com um aro de bicicleta. Leonel nos conta que isso fez parte de sua infância também. Brincamos com o aro, e depois de algumas (muitas) tentativas, consegui empurra-lo e fazê-lo rodar.
Como a vida é tão simples e leve. Alguns podem pensar que a vida aqui pode ser sofrida, mas nem imaginam que eles possuem o essencial e o necessário para sobreviver... a felicidade e a vontade de viver.
O dia foi perfeito. Não tinha como não ser.
E, finalmente, conheci minha família. É uma família muçulmana. A casa é muito aconchegante. Sem contar que estar com uma família é aprender ainda mais sobre a cultura. Sábado (18 de agosto)foi o fim do Ramadan, o jejum para os muçulmanos.
No dia 19 de agosto de 2012, eles celebram o fim do Ramadan com um grande almoço. Convidaram a Joana e o Tiago também. Foi muito bom. Lembrei-me dos almoços de domingo na casa da minha avó Joanna ou no Guaragi (distrito de Ponta Grossa) em que a família se reunia.
Comemos as comidas típicas dos muçulmanos e conheci a família inteira. Nunca me senti tão bem recebida. Estou no paraíso aqui.
Contarei mais da família na próxima postagem. Mas, antes que vocês pensem, eles não usam burca. rsrs















quarta-feira, 15 de agosto de 2012